Mudança Audaciosa

Parceiras de VidaAfrolatina testemunham o impacto significativo da vice-presidente negra da Colômbia

Por Indhira Suero Acosta

6 de dezembro de 2024

No centro, com blusa branca: a vice-presidente colombiana Francia Márquez. À extrema direita, com jaqueta marrom:  Bibiana Peñaranda, parceira beneficiária por VidaAfrolatina. À esquerda e à direita da foto: logotipos das organizações parceiras financiadas por VidaAfrolatina na Colômbia. FOTO: @ViceColombia.

Cali, a cidade latino-americana com a segunda maior população negra depois de Salvador, na Bahia, Brasil, é um epicentro de movimentos antirracistas. Lá, em 7 de agosto de 2022, milhares de pessoas celebraram uma mulher, de estatura baixa e humilde, vinda da cidade de Yolombó. Nesta pequena cidade, em meio à violência perpetrada por grupos armados, mulheres empobrecidas e vítimas de discriminação racial jamais ousaram sonhar em alcançar o poder.

 

Francia Márquez deu início à celebração ao se tornar a primeira vice-presidente negra da Colômbia.

 

Vallenatos, cumbias, mapalé, currulao e outros ritmos da costa do Pacífico — onde se concentra a população negra do país — ecoavam pelas ruas de Cali. É assim que Kenia Luna se lembra daquele momento. Ela é fundadora da AfroYoga, uma organização sem fins lucrativos que utiliza a ioga como ferramenta de apoio à saúde mental a partir de uma perspectiva feminista negra.

 

“Todo mundo estava tocando música no volume máximo. Foi um momento de sonho. Semelhante, mas ao mesmo tempo completamente oposto, à explosão social, lembra Luna, referindo-se à série de protestos entre 2019 e 2021, consideradas as manifestações mais importantes da história da Colômbia. “Uma forma de nos unirmos, não mais para lutar, mas para celebrar que a luta valeu a pena.”

 

Os afrodescendentes da Colômbia enfrentam inúmeras lacunas sociais e políticas. As mulheres negras estæo dentro das maiores taxas de desemprego e violência, de acordo com um relatório das Nações Unidas. Em uma nação onde quase metade do grupo racial de Márquez – 48% – vive na pobreza, tornar-se a primeira vice-presidente negra e a primeira mulher vice-presidente de qualquer raça, representa uma ruptura com o racismo, o classismo e o sexismo presentes na política colombiana.

 

Márquez, que nunca foi sutil como ativista antes de se candidatar, continua se afirmando por meio de ações inéditas nessa função. Entre os destaques estão a liderança na criação do Ministério da Igualdade e Equidade e apoio ao surgimento da organização não governamental Baobab Center for Innovation in Etnico-Racial, Gender, and Environmental Justice. Segundo Luna, agora há mais recursos e oportunidades para artistas e gestores culturais. Além disso, a vice-presidente está defendendo um boom no empreendedorismo.

 

Quando Márquez fez o juramento de posse, a Colômbia renasceu. Ainda assim, Luna acredita que o racismo se fortaleceu, evidente nas constantes xingamentos contra Márquez na mídia. “Há muita discriminação, e isso dói porque se é direcionado a ela, sinto que também é direcionado a mim.”

Visão

Em 2020, Emilia Eneyda Valencia, fundadora da Associação de Mulheres Afro-Colombianas (AMAFROCOL), estava tendo uma aula com Márquez quando anunciou que queria ser presidente. (Márquez lançou uma campanha para presidente antes de se tornar companheiro de chapa do candidato presidencial Gustavo Petro). Para Valencia, aquilo parecia uma piada. Dois anos depois, a chegada de Márquez ao governo foi um acontecimento crucial.

 

Assim como Luna, Valencia se sente ofendida pelos constantes ataques racistas contra Márquez. Várias tentativas de assassinato contra a vice-presidente e sua família foram frustradas. “A branquitude não aceita que um de nós ocupe essa posição”, diz Valencia. “Eles colocam todas as barreiras para que ela não execute projetos em favor dos negros.”

 

Valencia espera que Márquez crie um Plano Nacional de Reparações Históricas para reparar os danos causados ​​pelo colonialismo e pelo genocídio indígena. Foram os efeitos do colonialismo que levaram Márquez a tornar-se ativista aos 13 anos. Anos mais tarde, em 2018, recebeu o Prêmio Ambiental Goldman após organizar uma campanha local para acabar com a mineração ilegal na comunidade negra de La Toma.

Juntas

Yaneth Valencia é a fundadora da Associação Lila Mujer, uma organização para mulheres com HIV em Cali. Seus olhos se enchem de lágrimas ao falar de Márquez. “Ela é alguém com quem andei lado a lado”, diz.

 

Márquez está elevando o perfil afro-colombiano no cenário internacional e segue fortalecendo as conexões com a diáspora africana, como evidenciado por suas visitas a países africanos para se reunir com chefes de Estado e promover intercâmbios diplomáticos, políticos, comerciais e culturais por meio de sua “Estratégia África e Colômbia 2022 – 2026”.

 

“É necessário que nos reconheçamos internacionalmente. Fazer esse inventário daqueles que apostaram nela com sinceridade”, diz a defensora da saúde.

 

Além disso, graças à liderança de Márquez, em 13 de agosto de 2024, as Nações Unidas aprovaram uma resolução proclamando o dia  25 de julho como o Dia Internacional das Mulheres e Meninas Afrodescendentes. A Coordenação de Mulheres Afro-Colombianas Deslocadas na Resistência (La COMADRE) tem empoderado mulheres afro-colombianas vítimas do conflito armado que dura há décadas na Colômbia há mais de 20 anos. A ativista do La COMADRE, Shaendris Becerra, acredita que a chegada de Márquez à vice-presidência simboliza que cada vez mais pessoas reconhecem que as vozes das mulheres negras importam.

Momento

Andrea Moreno co-lidera a Casa Cultural El Chontaduro, uma organização comunitária que trabalha há 38 anos pela justiça racial e de gênero no leste de Cali.

Moreno acredita que, apesar de suas conquistas, o fato de Márquez ocupar seu cargo de vice-presidente “significa ficar cara a cara com a esperança, mas também significa reconhecer uma sociedade racista na qual, se houver um mínimo de dignidade na vida de uma pessoa negra, sempre encontra uma maneira de justificar que ela não merece estar naquele lugar”.

 

Ela se preocupa com o possível revés quando o mandato de Márquez terminar. “Pensamos sobre o que vai acontecer e como poderíamos interceder para evitar que o trabalho que começou se perca”, reflete Moreno.

 

Luna, da AfroYoga, compartilha dessa preocupação. “Não sei o que aconteceria com nossas liberdades se um governo de direita chegasse ao poder”.

 

Mas, por enquanto, a primeira vice-presidente negra da Colômbia tem dois anos restantes de mandato e vários sonhos a realizar. Luna, Emilia Valencia, Yaneth Valencia, Becerra e Moreno concordam que Márquez já conseguiu o fortalecimento do movimento feminista negro. Afirma Moreno: “Há muito mais força e esperança para as mulheres negras.”

VÍDEO: Discurso da vice-presidente eleita Francia Márquez


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Indhira Suero Acosta

Indhira Suero é jornalista cultural, colunista, radialista, analista de imprensa e professora universitária. Ela também é a criadora do Negrita Come Coco, personagem que promove a cultura popular dominicana através das redes sociais. Luta pela aceitação das origens afrodescendentes na sociedade e, brincando, denuncia os males que afetam os dominicanos.

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